Mostrando postagens com marcador 4.1 Curaçao. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador 4.1 Curaçao. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Outubro passou voando

Curaçao, 26 de Outubro de 2016.

Escrevo estas palavras novamente de Curaçao devidamente amarrado no pier da marina. Aqui dá popa do Itacaré vejo um mar de azeite de botar inveja a nossa amada Parati. Quem disse que o vento alísio também não tem seus dias de folga por aqui ?! Pois temos tido tempos de tanta calmaria com vento fraco e mar manso que até parece que a terra parou de rodar.

Ficamos sem dar notícias por aqui mas foi porque muita coisa legal aconteceu neste rápido mês de Outubro e nos faltou tempo...

Recebemos nossas primeiras visitas aqui em "casa" com muita farra e abraços saudosos. Primeiro minha mãe veio de Niterói nos visitar e por uma semana curtiu conosco as águas calmas de Curação. O tempo foi tão benevolente que deu até para levá-la a Klein Curação - uma pequena ilhota a duas horas de viagem daqui. Ela se saiu muito bem nessa primeira experiência a bordo. Deu para curtir snorkel, o mar aberto, as saídas para pescar atum, o mergulho com tartarugas e até fogueira na praia rolou ao som da nossa velha viola. Valeu Merita!!

Quem também esteve por aqui foi minha sogra, cunhados e sobrinhos. Galera boa demais também. Foi tiro curto, coisa de uma semana e muita bateção de perna por todas as praias de Curaçao, intercalado com churrascos e muitas cervejas. Todos já estão deixando saudades e seguem para suas vidas em dois dias e nós seguiremos por aqui, ao sabor do vento.. um por do sol por vez.

O mês de Outubro foi também nosso primeiro mês de tempestades e avisos de mal tempo... 

Pois é. Tivemos que antecipar nossa saída de Bonaire mês passado justamente pelo aviso da vinda do furacão Mattew. Os prognósticos variaram entre catástrofes e calmarias e na dúvida acabamos antecipando em 10 dias nosso retorno para Curaçao e nos preparamos para o pior devidamente amarrados por todos os lados na nossa querida Seru Boca Marina - um verdadeiro hurricane hole (abrigo de furacão, protegido por todos os lados).

Acabou que o mal tempo pouco deu as caras e o tal Mattew passou a quase 200 milhas daqui (o que para o amigo leigo significa... "muito longe") e a única consequência foi ondas maiores estourando na costa norte da ilha (nem vimos) e uma chuva mais forte no primeiro dia. O tal Mattew seguiu seu rumo norte ganhando força e varrendo a pobre Haiti novamente. Uma pena.

A preparação para chegada da tempestade foi uma boa escola pra gente pois diariamente (5 vezes ao dia!) passamos a consultar ansiosamente todos os sites gurus de vento para acompanhar a evolução do bichano o que melhorou bastante nosso skill meteorológico. Tome nota aí: NOOA.comStormcarib.com, windguru.com, windfinder.comhurricane.compassageweather.com, etc. Pode escolher o seu preferido. Nós, na dúvida, passamos a consultar todos eles periodicamente.

Pra você ver como são as coisas... estávamos todos bem preparados à espera do furacão mas ele passou longe. Mas dias depois fomos quase pegos de surpresa com um grande squall (pirajá / chuva de verão). Entrou pelo sul no começo da noite desavisado lavando Curaçao torrencialmente. Por sorte nossa estávamos devidamente amarrados na marina olhando o céu estrelado com a molecada e deu pra ver o clarão dos raios se aproximando. Deu tempo para rapidamente reforçar e verificar todas as amarras e depois assistir da cabine a bagunça passando e lavando o Itacaré.

Mas no dia seguinte recebemos com tristeza a notícia vinda de Bonaire de que 
a mesma tempestade que passou por aqui no começo da noite, passou por lá no meio da madrugada pegando todo mundo de surpresa fazendo o vento rodar e transformar a calma ancoragem em frente à vila em um belo quebra mar com ondas na cara.

Por azar dos nossos amigos franceses, o cabo de amarração do barco deles se partiu e o barco foi encalhar nas pedras no embalo das ondas. É de partir o coração. Eles quase tiveram que abandonar o barco... no sufoco foram rebocados e com leme e quilha bem avariados seguiram para o abrigo da Marina. Pra você vê como lá em cima tem gente olhando pra gente: um dia antes estávamos todos juntos ancorados em Klein Curaçao curtindo um lual com viola e fogueira na praia. No dia seguinte nós seguimos para marina em Curaçao e eles para Bonaire. Poderia ter acontecido com a gente.

Você aí da cidade, não fique assustado com este depoimento, ok?! Você já pensou em quantos riscos você corre diariamente quando sai de casa para ir trabalhar ? ..viver tem seus riscos, e a vida a bordo não é diferente e também tem seus sustos e aprendizados.

Esse mês fizemos também um grande upgrade na arte da pesca... Pois até então a coisa tava feia.

Saímos várias vezes para pescar atum de corrico e aprendi muito com os amigos portugueses do veleiro El Caracol. Aprendi a usar o "bird" para atrair o cardume (uma espécie de de peixe de madeira que você puxa na superfície e fica se debatendo na água), aprendi a selecionar e montar uma fieira com anzóis e lulas artificiais, aprendi também a como melhor limpar o peixe tirando o seu filé preparando-o para o sashimi. 

Agora a coisa ficou bem mais interessante e ganhou bem mais técnica. A prova final foi em uma dessas saídas quando o mar foi generoso conosco e pegamos 7 atuns em três linhadas... dois na primeira, dois na segunda linha..   e três bichanos na terceira. Tudo junto e embolado, foi lindo! Mais lindo ainda é ouvir o ziiiiiiiiiiiiiiiimmmm da carretilha gritando anunciando o sashimi se aproximando. Espetáculo. Pouco sabia sobre esta arte e desde então minha vida como pescador passou ser contada no período "pré-El Caracol e pós-El Caracol". Valeu Jorge !

Claro que estes sete atuns fizeram a farra da galera. Parte virou ceviche, parte sashimi.. e a maior parte foi parar na panela de barro engordar uma bela moqueca para alegria de todos os barcos amigos ancorados por perto. Chegamos a ter 20 pessoas a bordo do Itacaré se esbaldando na moqueca de atum com tempero brasileiro. Eta Farra boa. Já deixou saudades.

Logo depois os barcos amigos foram seguindo seus caminhos. Um voltou para Bonaire, outro seguiu para o Panamá, outro foi de avião para New Zealand, outro retornou para o Alaska, cada um no seu rumo.. e novamente nosso pier ficou vazio. A vida no mar é assim mesmo e já estamos começando a nos acostumar: uma vida repleta de grandes amizades e abarrotadas de encontros e despedidas.

Neste mês avançamos um pouco mais também na preparação do barco para viagem dado que em breve deixaremos nosso porto seguro aqui de Curaçao para nos aventurarmos pingando de ilha em ilha mar a fora.

Resolvemos em definitivo o problema de entrada de ar do motor de boreste (era o filtro que separa água do diesel que tava bichado). Instalamos também prendedores para os rizos negativos (Silvio, ficou um luxo..  você ia gostar de ver!). Instalamos também um corrimão no teto do barco para melhorar a segurança. Compramos mais coisas pra "casa" (aspirador de pó, maquina de gelo, liquidificador..), resolvemos também como estocar a água potável através de uns galões de 15L, instalamos também carregadores 12v pelo barco evitando assim termos que ligar o inversor para carregar o iphone e ipad.  E por fim, resolvemos também a troca das redes da frente do barco pois as atuais estavam podres. Compramos as novas da França e a chegada delas aqui é o que nos prende para seguirmos viagem para Bonaire.

Mas é como já falamos anteriormente..  Essa lista não acaba nunca! A gente elimina um item, aparecem outros dois. Haja bolso. Agora foi a vez dos marcadores de profundidade e de vento pararem de funcionar. Mas esses aí acho que vamos resolver mês que vem lá de Porto Rico pegando embalo na instalação do plotter e AIS que queremos comprar. Vida dura rapaz, ta pensando que é moleza a vida a bordo?! Todo dia é sábado, mas a gente também trabalha quase todo sábado. ;)

Avançamos muito também na homeschooling e a coisa começou a engrenar. Mês passado foi um sufoco para cumprirmos o roteiro do dia, tá lembrado?! ...já neste mês a coisa começou a ganhar velocidade, com todos mais adaptados e menos rebeliões e motins a bordo.

Temos aprendido muito com esse processo, não somente na lida com as crianças mas também aperfeiçoando muito nosso vocabulário e pronúncia. Muito interessante ensinar (aprender?!) gramática, fonética..  É como ser alfabetizado novamente em um novo idioma e compreender o porquê do som de cada palavra, cada vogal e cada consoante. Vamos ver agora se arranco de uma vez por todas o velho inglês safado niteroiense da gente! ...acho improvável, mas sigo acreditando! Montei (pra variar) uma longa planilha com as lições que temos que cumprir ao longo do ano todo.. com metas mensais. Estamos atrasados é bem verdade, mas pelo menos temos um rumo. Pois é, fazê o que?! ...até no paraíso eu monto planilha :0

Na virada deste mês rumaremos novamente para Bonaire para esperar de lá uma boa janela para subir ao norte para Porto Rico - aí sim, nossa primeira verdadeira travessia de 3 dias no mar em família. Te confesso também que durmo pensando no assunto e tenho me dedicado todas às noites estudando rotas, cartas e guias náuticos. O alto mar e a vida a bordo em geral já entraram na nossa rotina, mas travessias noturnas ainda são novidade fazendo com que meu estômago aperte com a aproximação de uma delas. Faz parte. Acredito que em breve também passaremos a achar isso normal.

Pra finalizar... este mês saiu uma reportagem na Revista Náutica sobre a gente. Ficamos muito felizes com o texto e com todas as mensagens de apoio que recebemos. Obrigado a todos os amigos que tem nos acompanhado e mandado pensamentos positivos pra gente. Obrigado em especial ao Tarcísio Alves - pois veio dele o convite e a entrevista para fazer a reportagem. Ficou show rapaz, parabéns !!

Em Novembro mandaremos mais notícias por aqui - talvez de Bonaire ou quem sabe de Porto Rico... 

Até!

Mês de outubro passou voando com ótimas companhias em Curação.
Veleiros El Caracol, Gentileza, Arthi, Galatic, Hericrize. Nessa foto aqui estamos puxando
 a molecada no bote... farrá boa!


Mais curtição com os amigos dos outros barcos..  Caminhada
para desbavrar os morros ao redor da nossa marina

Esse aqui é o Jorge - do El Caracol - nosso professor de pesca

Fomos em três barcos passar a noite em Klein Curaçao... dia show com direito
 a caminhada até o farol, pescaria, lual e viola..










Vovô Beth curtindo a água cristalina de Curaçao 




Sogra, cunhado, sobrinhos, ...que também vieram nos visitar.


Capa da reportagem da Revista Náutica destes mês (Outubro)....
se você foi pão duro e não comprou a revista, fique tranquilo que
 em breve colocaremos a reportagem no ar por aqui..

PS: Obrigada a Cat do veleiro El Caracol... várias das fotos aqui são de autoria dela (acompahe a viagem deles no facebook através da página "Entre tanto a bordo".




domingo, 21 de agosto de 2016

Pequenas coisas, grandes prazeres

Curaçao, 21 de Agosto de 2016

Essa semana foi muito dura, quente e seca. Levamos nossa casa para o estaleiro para uma longa semana de manutenções preventivas e pintura do fundo. Entre dias de sol e muito sol, pingamos suor no duro concreto da Curaçao Marine.

A boa notícia é que nada de grave encontramos no nosso barco. Demos uma geral no motor, trocamos ânodos, óleo e selo da rabeta, revisamos a mastreação, revisamos o leme - matamos a pequena folga que ele tinha, e aproveitamos também para dar uma embelezada no Itacaré pintando o fundo e polindo o costado. Ficou xuxu beleza.

O curioso é que depois que você acostuma com a vida a bordo pequenos hábitos você incorpora no dia a dia e você só percebe a importância deles quando fica sem eles. 

Acostumamos com mergulho no mar várias vezes ao dia para quebrar o calor, acostumamos também com o por do sol avermelhado todos os dias, acostumamos com vento constante refrescante, e virou hábito também (um dos meus preferidos) fazer o xixi noturno no mar namorando o céu estrelado. São todos pequenos e valiosos prazeres que a gente curte e incorpora ao dia a dia.

Mas essa foi uma semana de privações e tudo passou a ser mais notado por consequência mais valorizado. O xixi noturno no luar foi substituído por um xixi na garrafa fedorenta. O mergulho no mar, trocado por banhos no banheiro sujo da Marina, ...o balanço gostoso do barco e vento refrescante foi trocado por um chão seco de concreto, e o calor soberano fez o suar pingar por horas seguidas. Com o barco fora da água o banheiro não pode ser utilizado e mesmo a pia da cozinha funcionou à base de baldes de água. A vida que vinha bem organizada e confortável deu uma boa bagunçada.

Até o diabo das moscas deram as caras, fazia meses que não víamos uma. E pra piorar no meio da semana quando estávamos arrumando a louça do café da manhã brotou da nossa lixeira larvas da bichana.... E lá fomos nós pingar suor em um corre corre danado pra limpar tudo antes que elas se espalhassem. 

A sorte é que os dias passaram rápido e ao piscarmos o olho suado veio uma boa notícia pela internet. Recebemos do gerente da marina que estávamos (thank you Robert!!) uma cortesia por ter ficado 3 meses por lá e ganhamos uma diária no hotel de luxo deles - Santa Barbara Resort (bate no Google aí). Espetáculo!

Escrevo estas palavras justamente daqui... Sentado na mesa do café da manhã, no ar condicionado, vez ou outra visitando a mesa do buffet abarrotada de comida.

Você que está nos lendo aí no conforto da sua casa talvez não se dê conta da quantidade de luxos, confortos e prazeres que envolve a vida urbana - afinal o dia a dia já virou hábito a séculos e é normal os pequenos prazeres da vida passarem despercebidos.

Mas para quem mora a bordo a vida fica diferente, e os pequenos detalhes e pequenos prazeres são muito degustados e valorizados... Principalmente depois da semana que tivemos.

Ao chegarmos ontem à tarde aqui nesse mega hotel... Adivinha qual foi a primeira coisa que todos queriam fazer ?! 

...pois é, não foi ir para praia, para piscina, andar de bicicleta ou ir para as quadras de esporte. O tão esperado momento foi tomar um longo banho gelado, deitar na banheira, e depois sossegar na cama grande e gelada com ar condicionado no máximo. Espetáculo de momento. Ficamos assim por horas. A noite nunca foi tão bem dormida enrolado no edredom cercado de travesseiros... fazia mais de dois meses que não nos enrolávamos em nada para dormir.

Hoje pela manhã os pequenos prazeres continuaram e o orgasmo máximo veio a pouco quando dei alguns passos no chão gelado e caminhei até o banheiro do quarto sem suar para fazer com calma o número 2. Pude olhar todas as notícias na internet como acostumei a fazer quando morava na cidade... Sem pressa. Momento sagrado.

A vida a bordo envolve vários aprendizados e o maior que tivemos até o momento talvez seja justamente este: a dar valor às pequenas coisas do dia a dia, um dia por vez.

Para finalizar, ontem à noite quando caminhávamos indo para o restaurante uma grande lua cheia nos banhou. Falei para os moleques fazerem um pedido... mas o Zé Cuca emendou de primeira: "...não precisa pai. Lembra que meses atrás sempre que fazíamos um pedido, pedíamos para estar aqui?! ...pois então,. hoje estamos aqui... legal, né?!", moleque danado. Ele tem razão, estamos vivendo nosso sonho.

Nosso barco deve ir pra água amanhã e tudo correndo bem o próximo post escreveremos de Bonaire, nosso próximo destino. 

Ps1: Se você está nos acompanhando, fique à vontade em dar um alô aqui pelos comentários...  a gente comemora sempre com muita festa cada mensagem recebida! 

PS2: ..e te convido também a dar uma olhada no blog escrito pela Raquel, ela passou a escrever semanalmente pra revista país e filhos e sempre réplica os textos aqui no blog dela - basta clicar aí do lado no rosto dela. 

Até a próxima!



Nossa casa saindo da água para longa semana de manutenções.... 



Ficamos nessa posição uma semana sem poder usar o banheiro, a cozinha....
vivendo meio que acampado





Como foi nossa primeira vez fazendo o fundo, optamos por contratar o povo
da marina e acompanhar todo o serviço de perto para aprender.  Na próxima vez, a tarefa será nossa.


Nossos dois lemes tinham pequena folga. Tiramos eles, e colocamos
buchas novas.. eliminando a folga. Pequeno problema hoje que no
futuro poderia se tornar um grande problema..

Nossa equipe animada entrando no elevador do hotel.
"Esse aqui é hotel de rico, não é pai?!", diziam eles.






Depois de viver no mar..  a piscina passou
 a ter muito valor.



Pequenos prazeres que valem ouro.  "Se fui pobre, não me lembro!", dizia ela., :)))




Primeira vez desde muito tempo, dormimos enrolados entre
várias garças, aproveitando o ar condicionado.

Café da manhã no hotel.... enquanto escrevia estas palavras.


É isso ai... um dia muito curtido que valeu ouro!




sábado, 30 de julho de 2016

Novos hábitos e uma nova rotina

Curaçao, 30 de Julho de 2016.

Essa semana completamos o primeiro mês a bordo do Itacarė. O tempo passou tão rápido quanto costumava passar na nossa antiga vida em São Paulo.

Um dia por vez fomos nos adaptando a um novo estilo de vida, assimilando novos hábitos e construindo uma nova rotina. Entre manutenções diarias, caminhadas, remadas, filmes, provisionamentos e muita dor no corpo.. os dias voaram. (Ps: por falar em dor no corpo, ...no último post falei que minha lombar conversava comigo em SP... pois éhh.. aqui ela grita comigo!)

Nossa nova casa já esta funcionando perfeitamente e todos já estão muito a vontade a bordo, realmente podemos dizer que nossa adaptação no barco já esta concluida.

A escolha por Curaçao bem como começarmos a partir de uma marina se mostrou acertada e muito ajudou neste início. O conforto do pier, a fartura da água, a variedade e qualidade das lojas e a facilidade nas idas e vindas para provisionamento do barco são pequenos detalhes que fazem toda a diferença.

Alem disso - e talvez o mais importante - poder focar na casa e na familia sem ter que se preocupar com o mar, com a ancoragem ou mesmo com segurança também tem sido chave. Poder estar seguramente amarrado em um pier tem sido um luxo que valeu cada centavo neste começo. Mas não ache você que tudo são flores. Se por um lado tudo correu bem, por outro temos dois grandes desafios a frente - e vez ou outra perco o sono pensando neles.

O primeiro, é enquadrar nosso orçamento pois gastamos neste primeiro mês o equivalente a quase 4 meses do que haviamos previsto. Temos olhado linha a linha da nossa planilha e buscado encontrar a esperança e o ajuste necessário para termos meses melhores.

Mas há esperanca...

Neste primeiro mês tivemos muito gasto com provisionamentos/setup inicial do barco que não devem se repetir. A marina tambem é um custo pesado que acaba este mês (vai dar saudade!). Passamos também a fazer todas as refeições no barco pois restaurante também foi um grande vilão (lembra da gincana do gás?!). E até a água potavel paramos de comprar pois é um custo danado mensal e passamos a beber agua do dessalinizador (recolhemos ela antes de cair no tanque) ou da marina (adaptamos um filtro pra encher nossas garrafas).

Me acostumei neste ultimos 23 anos a ver o salário pingar todo fim de mês... e por consequencia nunca fui de olhar preço de coisa no mercado, mas agora a realidade é outra e me vejo comparando preço de pasta de dente e optando por carne de frango ao inves da velha picanha. Éhh rapaz... cada escolha uma renúncia - faz parte.

A segunda preocupação tem a ver com meu baixo conhecimento técnico. Caramba!! ...quanta coisa tenho a aprender sobre mecânica, elétrica e manutenção em geral! ...mas eu não desanimo não, to partindo pra briga!

Tenho me aventurado diariamente pelos cantos do barco e todo dia quebro a cabeça para resolver os problemas que vem surgindo. Já virei amigo da fiação elétrica, da tubulacao do gas, das bombas de porão, das velas, dos cabos, do freezer, e por ai vai. E se ate agora o barco ta boiando e nada explodiu.. estamos no lucro.

Outro dia me aventurei pelo dessalinizador buscando entender o porque dele ter parado de fazer água. Desmontamos quase o barco todo para seguir a tubulação e entender como funciona o sistema e acabamos resolvendo o problema.

Nessa hora, vale muito também a ajuda dos novos amigos do mar - recentemente chegaram dois barcos brasileiros aqui na marina - o veleiro Gentileza e o Arthi - e entre churrascos e cervejas fui aprendendo muito com as várias dicas dos amigos mais experientes - obrigado Paulo e Germano!!
Veio deles a explicação de como funciona o dessalinizador e bem como a dica de como fazermos um desvio na água para podermos beber.

Como nosso orçamento é apertado, cada simples solução que pudermos encontrar que signifique economia representa uma grande vitória.

Por fim, antes de finalizar... a boa noticia do mes é que nosso painel solar é um espetáculo e tem conseguido manter muito bem nossas baterias em dias normais de consumo. Só não somos autosuficientes de energia pois o dessalinizador quando ligado esfola as baterias.

Em breve falaremos sobre nossa rota... acompanhem!






Turistando pelo centro de Curaçao

Fazendo água potável com nosso filtro improvisado.. uma bela economia mensal




Fim de tarde brincando na proa


Essa aqui vai para aos amigos de SP

Ancorado em Spanish Water - testando a vida fora da marina





Fazendo trilha pelos morros da marina..






sexta-feira, 15 de julho de 2016

Corpo dolorido, cabeça vazia

Curaçao, 15 de Julho de 2016.

Eu achei que o tempo fosse freiar quando estivéssemos aqui... Mas que nada, os dias tem passado rápido e num piscar de olhos completamos quinze dias aqui.

Acho que a primeira fase da nossa adaptação já está feita, nossa "casinha" esta funcionando perfeitamente. Já provisionamentos o barco, temos água, gás, energia elétrica, um monte de comida, frutas, verduras, café de coador funcionando perfeitamente... Cada um já está com suas cabines arrumadas, brinquedos guardados - nenhum sinal de caixas ou bagunças espalhadas. A rotina diária devagarzinho começa a aparecer.

O sono tem sido de rei. Coloco a cabeça no travesseiro e em coisa de cinco minutos pisco o olho e já acordo de manhã. Sono profundo. Sono bom do corpo cansado e da cabeça vazia. Por falar em corpo cansado, devagarinho ele (o corpo) - presta atenção senão tu não me acompanha! - também vem se adaptando a nova vida,  mas as dores daqui são diferente das dores da cidade. 

Em São Paulo era normal minha cabeça doer, ombro travar e lombar doer - coisa normal da vida urbana estressada e acelerada. Lá a cabeça trabalhava mais do que o corpo processando a milhares de coisas ao mesmo tempo e espalhava choque elétrico travando a tubulação dado a ferrugem. Minha lombar sempre falava comigo ao longo do dia... 

Aqui é diferente. A cabeça pensa nas coisas do barco e o corpo trabalha muito, o tempo todo. Minha lombar está na boa, feliz... e nada de dor no ombro. Mas por outro lado doe outras partes do corpo que estavam adormecidas a séculos. Aqui doe meu joelho esquerdo, a planta do pé, o meio das costas.. As pernas cansam e as mãos também. Também, não paramos nenhum minuto.


Já começamos a preparação do barco para sairmos da marina - temos executado diariamente uma lista de coisas que tínhamos desenhado desde a última vinda (sim, cotinuo com minhas listas de tarefas diarias a cumprir!). Já configuramos antena da internet (ficou show), já fizemos reparo na vela mestra (digo, tiramos a vela e enviamos para um cara fazer), já reapertamos parafusos do barco, trocamos algumas lâmpadas por led, trocamos e reorganizamos os cabos, subimos no mastro, limpamos o fundo do barco, refizemos amarrações da âncora reserva, reorganizamos caixa de ferramentas, e já nos embrenhamos por cada buraco e paiol do barco para melhor conhecê-lo. 

Mas a lista não acaba não... A cada coisa que a gente mata, pintam mais duas ou três na lista. Ja temos engordado uma longa lista para fazermos quando subirmos o barco para pintar o fundo - o que deve acontecer agora em agosto. Mas um dia por vez, sem pressa vamos avançando. O meu corpo em formato de jaca vem mudando devagar e acho que já perdi uns 2kg, apesar do meu caçula continuar dizendo que não... E continuar me chamando de "bochecha" :)


Minha Branca assumiu a posição de Personal trainer do Itacaré - e temos vez ou outra feito um circuito que envolve pesos de mão, corrida, corda e abdominais. Claro que morro nos primeiros 7 minutos, mas sigo insistindo. Tem dias que o corpo acorda todo dolorido como se tivesse sido atropelado. E acho que neste ritmo talvez em um ou dois meses meu umbigo deva pular pra fora - faz vinte anos que ele pulou pra dentro e nunca mais o vi.


As crianças tiveram - acho eu - três momentos diferentes na adaptação. No começo tudo foi festa, dado a ansiedade e novidade. Dias depois bateu um pouco de "tédio" e vez ou outra ouvimos algumas reclamações ("prefiro nossa vida em São Paulo", chegou a gritar um deles). Mas logo depois (graças a Deus!) eles entraram no clima, passaram a brincar diariamente na água (sobe no barco, pula pela frente, e volta por baixo do barco, sobe de novo... e por aí vai - ficam horas assim), e passaram a me ajudar a limpar fundo do barco, arrumar os cabos e também a remar na nova canoa.


Estes dias na Marina tem sido de muito trabalho, e ao mesmo tempo "conforto" . Aqui só temos um casal de franceses como vizinho e pronto... Marina vazia, bonita, limpa toda pra gente. O casal de franceses , inclusive - virou grande amigo nosso. Já jantaram aqui em casa, já jantamos na casa dele e muito temos aprendido com eles sobre vida a bordo, manutenções, organização do barco, etc. O barco deles (Oxygen), inclusive, é impecável - tudo no lugar! ....foi o francês quem me ajudou a subir no mastro - com a Branca atenta ao lado dele, você viu o vídeo no Instagram?

Enfim, o conforto deve acabar no fim do mês - quando já vamos sair da Marina e tocar nossa vida normal ancorado por aí. Em breve mais noticias!



Sylvan e Izabelle - nossos vizinhos e amigos. Nossos barcos
ficaram lado a lado aqui na Seru Boca Marina

nada é fácil rapaz, nosso freezer parou de funcionar.. catei um holandes
na internet e levei ate a casa dele para trocar umas peças. Acho que ficou ok.. vamos ver.


Cada enchadada uma minhoca. Essa foto aqui é do fundo do nosso motor de
 bombordo (esquerdo). Repare na ferrugem.. esse registro ai ja foi
pro brejo - mais um item de grande prioridade quando subirmos o barco.
O alternador tb ta todo comido pelo mar..  nada é fácil, rapaz!


Equipe Itacaré turistando pela cidade..

Foto la do alto do mastro - subi lá para trocar o cabo da vela principal.. o estômago
dá uma trancada, mas faz parte. É melhor aprender a fazer agora parado
na marina - do que aprender depois em alto mar..


Brinquedo novo... é meio graúdo - mas o bom é que da pra ir 3 remando..


Fim do dia.. nosso horário preferido, quando o céu e o mar se mistura colorido.







quarta-feira, 6 de julho de 2016

Um novo começo

Curação, 6 de Julho de 2016.

Escrevo estas palavras deitado na cama, de dentro do Itacaré... Zé Cuca tá aqui do meu lado catucando o iPad (acabamos de escrever no blog dele), o Bruno já capotou há tempos e a Branca tá lá encima atualizando o Instagram. Pois é... estamos aqui. A longa travessia terminou, um novo capítulo das nossas vidas acabou de começar.

Por vezes custo a acreditar que o que estamos vivendo é real... É como se sonho misturasse com realidade. Estes dias me peguei apressado com as arrumações, acelerado, como se tivesse que deixar logo tudo pronto como se daqui há pouco as férias fossem acabar - mas logo cai na real de que não há motivos para ter pressa. Afinal, a partir de agora temos "todo tempo do mundo".  "Tempo"... algo tão precioso. A vida inteira ele me faltou...

Chegamos aqui em Curação dias atrás (última quinta) depois de uma maratona com as bagagens. Pra variar exageramos de novo e fomos esfolados dado excesso de peso. A Copa enfiou a faca e rodou. Tentei relaxar... Afinal desta vez trata-se da nossa mudança de casa. Quanto custaria um caminhão se estivéssemos de mudança em SP ?

Até ontem nossa vida estava bem bagunçada com tralha pra tudo quanto é canto, o barco sujo e desorganizado... muita coisa pra fazer, mas aos poucos fomos colocando as coisas nos seus lugares e tirando o diabo das caixas de papelão em definitivo das nossas vidas. 

Nossa cozinha já ganhou forma, as cabines (quartos) também... Meu armário então ficou impecável - minhas cuecas nunca foram tão bem dobradas e organizadas! ...trabalho da Branca, obviamente, pois se fosse por mim meu armário pareceria um vulcão. Por falar em cuecas, to bem satisfeito com minha média atual de uso, acho que elas devem durar uns 7 anos neste ritmo. (Pra matar a curiosidade do povo da cidade) aqui usa-se muita sunga bermuda e nada mais. Mas tem uns por aí que andam peladões mesmo.. (As crianças inclusive têm perguntado o porque dos peladões mas a gente logo acalma eles explicando que faz parte da nossa volta ao mundo).

Dias atrás alugamos um carro, uma chumbrequinha miúda e barata, mas que muito tem nos ajudado neste início - ela (a Chumbreca) deve ficar com a gente por duas semanas. Já fizemos mercado, compramos chip pro celular, compramos uma tv pras nossas sessões de cinema... e aos poucos a vida vem endireitando-se. ...cada picaretinha também comprou seu próprio celular pra poder tirar fotos, fazer vídeos e manter seus blogs atualizados. Se dependesse do pai seria o mais barato da loja, mas como a vovó deu de presente pra cada neto uma carga de dólar - não tive como segurar.. "...valeu vovó Beth!!", gritaram eles. (Ohh vovó, me manda uma carga de dólar também pois to precisando!, grito eu.)

Mas como nada é fácil neste começo, quando voltamos pro barco ficamos sem gás..  e aí nossa luta começou. Ficamos cinco dias numa gincana pra resolver está desgraça e o que nos salvou da inanição foi a velha churrasqueira a carvão. Já rolou pizza, frango, carne, legumes, shitake no papel alumínio... e por aí vai. O rango até que ficou muito bom - cada dia melhor, mas duro foi sobreviver sem o cafezinho de todo dia (minha mão chegava a tremer). Brincadeiras à parte, mas esse papo de gás quase nos tirou do sério.

Rodei a cidade de ponta a cabeça umas quinze vezes - sem sucesso. Primeiro tentamos encher nosso botijão. Desistimos. Afinal, Cavalo anda com cavalo, boi anda com boi... Então, dado que nosso botijão é francês pra que ele serve aqui nesta ilha holandesa?!

Mudamos o alvo e passamos a tentar comprar um botijão local,mas nenhuma loja vendia ! ...rodamos para um lado, rodamos para o outro ...e quando já íamos desistir, eis que aparece um "abandonado" nos fundos de um mercado, sujo e esquecido. Agarrei ele como aquele bichinho do filme infantil que agarra as nozes! ...mas a gincana não acabou, só pulou de fase. O desafio agora era conseguir enche-lo, e como ele era padrão "barbecue"... depois de muita luta concluimos a tarefa no posto de gás central da cidade um dia depois. (E nada de café!)

A sofrença não parou ai não. ..e pra matar qualquer santo de infarto o desafio maior foi tentar adaptar o diabo da botija holandesa na mangueira do nosso barco francês (lembra do boi?).  Nada é fácil rapaz! Tentei fazer umas gambiarras mas o gás cismava de vazar pra todo lado. Achei que fosse explodir nossos sonhos logo na partida - literalmente. Depois horas e um vai e vem dos infernos procurando o adaptador certo em todas as lojas da cidade acabou que achamos ... e hoje tomamos nosso primeiro cafezinho a bordo.

...para finalizar o dia (e a piada) hoje no fim de tarde fomos em uma loja comprar umas tralhas, e quando passamos pela área de barbecue adivinha o que que nos achamos ?? ...claro, uns cinquenta botijões lindamente organizados enfileirados. Desgraçados! ...o que que eu fiz? Comprei outro, claro. De falta de gás é que não morro ! ...pra você ver como a vida a bordo é mais complicada do que você imagina.

Pra finalizar: Por enquanto estamos atracados no pier de uma marina (Seru Boca Marina), vivendo o capítulo "arrumando a casinha" e por aqui devemos ficar pelos próximos 30 dias. A ideia é organizar a vida e nos adaptarmos com calma a uma nova rotina. Depois vamos preparar o barco para aos poucos - degrau a degrau - ir se lançando ao mar. 

Em breve vamos colocar uns posts sobre nosso Itacaré - pra matar a curiosidade do povo... E contar também um pouco da rotina da molecada. E estamos tb carregando mais fotos no instagram e no facebook (itacaresailing).

...vou deixar as primeiras impressões da Raquel e da molecada para vocês verem no blog deles, está aí na direita desta página a um clique seu.

Valeu ! Acompanhem!!





Valeu Pedrão ! (Foi ele quem fez a caridade de nos levar de madrugada até
 o aeroporto em Guarulhos/SP)


Desembarque da Normandia em Curação - nossa equipe.. e nosso excesso de bagagem.
Acho que não fomos barrados na alfandega pois o cara ficou com pena da nossa cara de sofrência..


Nossa chumbrequinha alugada.. e os picaretas aí
acho que você já conhece


Vista do nosso happyhour... (bar "Boca 19")



Abrindo as caixas da Calvert School... talvez esse seja
nosso maior desafio



Nossas novas vizinhas.. Tem milhares aqui


Happyhour no bar (Boca 19) ao lado da marina..


...com essa vista aqui



Fim de tarde na nossa varanda...


Veja mais fotos no Instagram: #itacaresailing