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segunda-feira, 6 de junho de 2016

Levando a criança para seu porto de partida: Travessia Martinique -Curaçao

São Paulo, 6 de Junho de 2016

Caramba, por onde eu começo este post ?!

...tanta coisa aconteceu nos últimos 15 dias que ficou difícil traduzir em palavras e manter o povo atualizado por aqui. 

(mas mantivemos sim a conta do Instragram quase em tempo real com fotos e frases, você viu ?! senão, veja ai: instagram.com      --> procure por #itacaresailing)

Estivemos nos últimos 15 dias levando nossa caranguejola de Martinique para Curaçao, sendo este nosso ponto de partida com toda a família mês que vem. Foram quase 650 milhas náuticas de fortes emoções e grandes aprendizados. Meu irmão Tete e velho amigo Richa me acompanharam nesta empreitada. (Valeu amigos!!)

Para variar o “video game” mudou de fase e meu estômago passou a contorcer de novo – agora sim, por motivos náuticos e oceânicos. A sofrência começou logo no despacho das bagagens em Guarulhos – errei nos cálculos e exagerei um pouco. O resultado é que fui xingando o diabo das caixas com nossas tralhas de SP até nosso destino final. De checkin em checkin fui pagando excesso de bagagem... desgraça! “Mas tudo bem, já levei metade da nossa mudança”, tentei me confortar.

...a sofrência nos acompanhou também quando chegamos em Martinique dois dias depois (depois de uma rápida escala em Barbados).  A instalação do painel solar atrasou muito, e ficamos os primeiros 5 dias parados no pier do estaleiro acompanhando o entra e sai dos gringos pendurados no barco entre soldas e parafusos. Tudo bem que a viola e cerveja rolaram solto para alegrar o ambiente. Mas fiquei com pena dos meus tripulantes..  que tinham a promessa de sombra e água fresca mas não tinham nem colocado o pé na água até então ficando restritos a muito trabalho e carregamento de peso (foi mal galera!)

Neste longa parada aproveitamos para estocar o barco com comida, água, gás... e algumas peças reservas de motor, vela e coisas do tipo. Aproveitei o embalo (e o tempo livre) e troquei as correntes da ancora do barco, coloquei cadeados novos nos paios, configuramos a internet, arrumamos equipamento de pesca e mergulho, comprei cabos para ajudar na rizada das velas... e outras coisas a mais. A cada espirro saia 250.. 300 euros.  Outro espirro, 450 euro. Jesus, meu bolso vai naufragar na partida.

Mal o serviço terminou.. e enquanto o polonês estava dando a última polida pendurado no inox que segura as placas solares.. já estávamos dando partida no motor para nossa primeira saída. Ahh, a primeira vez a gente nunca esquece.

Foi como tirar um caminhão jamanta da garagem do prédio.  “Como isso aqui faz curva?!”. O diabo do vento soprava, e meu estomago apertava manobrando a geringonça. Coitado do Itacaré... maltratamos ele um pouco nos primeiros dias dado nosso baixo nível de conhecimento. Nos enrolamos um pouco na subida e descida da mestra, nos enrolamos com a catraca elétrica que sismou de morder e travar os cabos. Algumas cenas de vídeo cacetada depois  e já estávamos mais ambientados a caminho de St Lucia, 50 milhas ao sul. O antigo dono me falou que levaria algo entre 15 e 25 minutos para me acostumar e gostar do bichão...  ele tinha razão.

E ah se eu te falasse do vento daqui !!  ...essa cena que você tem ai na sua cabeça de que o caribe é sombra, coco e água cristalina..  existe só no teu cérebro.  O visual é este mesmo, mas por aqui o vento apita intenso agudo, sem descanso. 25 nós e onda de 2 metros são calmaria por aqui, nada parecido com o que vivemos na Ilhabela e Paraty nos últimos 4 anos.

Mas fato é que nosso batismo foi logo de cara – como uma injeção na bunda, não deu tempo nem de sofrer muito: já embicamos a barcaça rumo a St lúcia e pronto. Mar aberto, vento forte e onda de través (de lado) estourando no casco. O estômago apertou dado o batismo, mas que velejada dos deuses! Itacaré voou junto com nossos sonhos e pensamentos.

Como disseram os franceses, “quando o barco é grande, o mar fica pequeno”. “Se estivéssemos neste mar com o Lafitte, seria um salseiro!”, pensei. Mas o Itacaré cortou o mar de peito aberto, sem tomar susto e nos levou firme a quase 9 nós até nossa primeira ancoragem, em Marigot – St Lucia – 5 horas depois.

Cheguei realizado. O vídeo game mudou de fase de novo, afinal o capitulo até aqui era para iniciantes. Minha cabeça mal relaxou com a cerveja da chegada e já estávamos pensando no próximo alvo adiante: travessia de 4 dias até Curaçao com parada em Los Roques. Aí sim... alto mar..  a 300 milhas de lugar nenhum.

Tudo bem que para tal empreitada, nossa tripulação ganhou grande reforço – nosso amigo Silvio Ramos veio de SP e se juntou a nossa jovem tripulação incrementando bastante a senioridade do time (quanto a “jovem tripulação”, você entendeu não é?!.. não preciso explicar). 

Foi como nosso vascão mesclando juventude com uns caras casca grossa-vividos dando solidez ao time. Já falei sobre o Silvio em outros posts..   ele já deu volta ao mundo em seu veleiro e muito nos ajudou nas primeiras caminhadas com o Lafitte.. bem como na preparação para este projeto.  E claro, ele não ia perder o desenrolar dos acontecimentos.

O dia amanheceu, fizemos a papelada de saída do barco, entupimos de diesel até o talo ... e aproamos para mar aberto para seguir nosso rumo. O vento fresco nos acompanhou no começo mas a medida que o tempo correu foi aumentando de intensidade como previsto nas cartas e previsão do tempo - assim como nosso aprendizado, que foi crescente ao longo do percurso.

Logo na primeira noite nossa linha sacudiu com um atunzinho de 2 a 3 kg – que virou sushi em questão de minutos alegrando nossa atenta tripulação. Os dias e noites se seguiram entre turnos, bate papo, e muito ajuste de vela e miudezas no barco. Silvio incansável olhava tudo a bordo dando sugestões de manutenções, de regulagem ou ajustes em geral. Ganhei muito tempo de aprendizado.    ... e minha lista de tarefas que tava esvaziando ja engordou com uns 97 itens. Valeu amigo!

O único susto que tivemos foi em uma noite qdo tivemos um rumo cruzado com um barco de pesca.. desviamos, mas ele manteve o rumo na nossa direção, apagamos as luzes e como um barco fantasma na noite escura cortamos por eles a 500m de distância.. vai saber suas intenções.

Nossa escala em Los Roques foi dos deuses.  Inclusive anote ai na tua planilha: Los Roques – Venezuela! Imperdível. Pena que o tempo foi curto, esse lugar pede uns 30 dias. Ancoramos em um circulo de corais de mar azul piscina, destes dignos de cartão postal – e fomos brindados de novo pelo mar, desta vez com uma cavalinha de uns 2 a 3kg que virou posta na panela regada a cerveja.

Nossa chegada em Curaçao foi animada, bem comemorada.. com muita cerveja e animação. Paramos na marina (Seru boca Marina) como previsto..  e o dia seguinte se desenrolou com muito trabalho preparação da papelada de entrada no país bem como na arrumação para deixar o barco descansando pelos próximas semanas até nosso desembarque em definitivo no fim de junho..  ai sim, de mala, cuia, papagaios e apetrechos.  Nos aguardem!!

Antes de fechar este post, fica aqui meu agradecimento a meu velho irmão e amigo Tete, a meu velho amigo e parceiro Richa.. e meu recente e importante amigo, Silvio.  Tripulação nota dez!!

Fica aqui também o agradecimento especial as nossas esposas que compreenderam o momento.. e seguraram as pontas a nossa espera em São Paulo.  Afinal.. tivemos momentos de 3 dias sem noticias em alto mar..  não deve ter sido fácil a espera. Valeu esposas !!  (tudo bem que os maridos estão dizendo que isso não contou como alvará pois só teve ralação..  e eles precisam de outros 15 dias, ok ?! ;)))


Valeu!


Eu, minhas caixas..  e meu excesso de bagagem..


Instalação do painel solar em Martinique.. e nossa longa espera

No pier do estaleiro.. a espera..



Primeira parada em St Lucia - Marigot Bay. Lugar espetacular,
regado a por do sol

Atunzinho do primeiro dia virando sashimi

Em algum lugar a caminho de Los Roques

O mar foi crescendo a medida que descemos em direção a Los Roques

chegamos a voar a 12 nós surfando as ondas.. com tudo a favor


ancorado em Los Roques..   nota dez!


Turnos e returnos de bate papo e troca de figurinha.  Valeu SR !! ##



Mais Los Roques...

a cavalinha que virou posta na panela..




chegando em Curaçao - canal de entrada da baia


Nossa tripulação comemorando a chegada em Curaçao












domingo, 1 de maio de 2016

Itacaré Sailing !!

Barbados, 1o de Maio de 2016.

Escrevo estas palavras de dentro do avião da Gol, em algum lugar entre Barbados e São Paulo. Lá embaixo, o mar do Caribe azul como nos sonhos. Na cabeça planos, pensamentos, angústias variadas, oscilando entre muito animado, determinado e preocupado. Será que to ficando bi-polar ?!

Dá para explicar a ansiedade pois essa foi a semana mais esperada dos últimos 5 meses - a semana da vistoria (survey) e posterior assinatura definitiva da compra do nosso tão sonhado barco-casa. Fortes e intensas emoções. 

Vim a Martinica novamente sozinho de mochila nas costas, euro no bolso e fone nos ouvidos, deixando a galerinha em SP (talvez mais ansiosa do que eu) à espera de notícias.

Tudo estava agendado há meses, vistoriador (surveyor), a subida do barco (hauling), o seguro, a documentação..   tudo certo - só faltava eu chegar para acompanhar.  E não é que o diabo do voo atrasou na ida fazendo com que eu perdesse a subida do barco no estaleiro ...desgraça ! 

Angustiado, do aeroporto contei as horas como um pai que perde o nascimento do filho. Cheguei muito atrasado e o bichão já estava de novo na água. Tudo bem... vi ele por baixo através das fotos, e no dia seguinte fui as forras no sailtest (velejada para testar o barco). A barcaça deslizou lisa nas águas azuis do Caribe complementando a paisagem e eu em cima com sorriso de orelha a orelha fotografando tudo.

Minha primeira noite a bordo foi conturbada, com sono intercalado. Lá fora tudo parado, sem vento, barco seguramente atracado na Marina em Le Marin. Dentro da minha cabeça um turbilhão de pensamentos.. passou um filme dos últimos acontecimentos.

Me lembrei dos últimos anos, quantos planos e etapas para chegarmos até ali; confrontei medos imaginando um barco daquele tamanho sendo navegado por mim, mulher e filhos pequenos. Sonhei que faltava dinheiro e tinha que interromper tudo no meio. Veio até aquele sentimento de "caramba, o que que eu to fazendo aqui??", tu acredita?! ...mas esse último aí passou rápido como um suspiro.  

Lembrei também de quando troquei de moto e pulei da minha magrelinha de 250cc para minha velha amiga Cavala de 1200cc que nos levou vitoriosa até o Atacama. A primeira vez na estrada a gente nunca esquece. Meu anus foi trancado e o estômago contorcendo a cada acelerada da Cavala desafiando o barulho do vento. O sentimento é idêntico dado que migramos do velho amado Lafitte de 36 pés para essa criatura imensa de 44 pés e 7,20 metros de largura.

Como diria meu querido irmão Tete,   " ..quanta sofrência!!" :))

Esse projeto aqui realmente é como um vídeo game (já falei isso antes), você vai mudando de fase e a coisa vai ficando mais difícil, principalmente emocionalmente. Só peguei no sono mesmo depois que abri meu IPad e por horas listei mais umas cento e cinquenta coisas que vou fazer nas próximas 8 semanas. Engraçado que meu estômago só acalma se eu escrever e planejar, acredita? ...depois durmo quenem um bebê.

Entre os planos o principal tem a ver com a ida do barco daqui a 3 semanas de Martinica para Curacao. Já reservei a vaga na Marina por lá (bate no Google aí.. Seru Boca Marina) e contratei um capitão experiente que conhece bem o barco e já velejou inúmeras vezes em catamaran.  Esse cara será meu professor na minha primeira travessia, sendo a melhor forma que encontrei de ampliar o conhecimento no curto prazo que tenho antes de desembarcar em definitivo com família, mala e cuia a bordo. Mas isso é papo para um próximo post.

Vamos falar um pouco sobre a caranguejola....

Nosso barco é uma jaca-manteiga, imensa, linda.. especial. Muito espaço para guardar tralhas, receber visitas, fazer churrasco, carregar sonhos e apetrechos. Dois motores volvo de 40HP empurram a criança pra frente facilmente a 7 ou 8 nos. Dentro 4 cabines espaçosas, cada uma com um bom banheiro. Ele já vem equipado com radar, GPS, rádio, outras tralhas, watermaker (dessalinizador) e bote de 3m com um forte motor de 15HP (os moleques vão adorar).  Pra morar a bordo - além de toda a parafernália pra casa (panelas, travesseiros, etc.) faltam também os painéis solares para ajudar na autonomia e aliviar o bolso.

A vistoria confirmou a integridade de casco, velas e eletrônicos, sendo a única ressalva (que o seller vai resolver por conta dele) é a troca do estaiamento da frente (cabo de aço que segura o mastro / e a vela da frente - a genoa). Tinha um cabinho de aço partido no meio dos demais. Tudo bem que o desgraça do vistoriador recomendou que eu aproveite o embalo e troque os demais estais por segurança. Para desespero do nosso bolso, devemos atender a sugestão em breve.

Nosso barco também ganhou nome..  ITACARÉ, como você bem sabe. Logo no primeiro dia contratei uma empresa que o adesivou lindamente. E não podemos deixar de agradecer principalmente a nossa amiga Sandra, de SP - criadora do logo. Valeu amiga!! ...sua obra ficou um espetáculo!!

Abri uma cerveja pra comemorar a assinatura do contrato (uma não, várias!) e no fim do dia até brinde de champagne francesa rolou patrocinado pelo dono da empresa que nos vendeu o barco. Inclusive, povo gente boa o daqui... sempre atencioso e gentil. E anote aí o nome do broker, caso você também seja meio desajustado: Frederic e Dominique da A&C Broker em Martinique, e Marie-Claire da Caribbean Multihulls de Saint Marteen (Merci my friends!!)

Chega de falar e vamos a algumas fotos que talvez retratem melhor tamanha sofrência.

PS: Caramba, amanhã já retorno ao trabalho! Acho que já vou comunicar nossos planos logo na chegada... Jeeeesus.., como vai ser isso ?! Preciso virar logo essa página e tirar essa duvida da cabeça!

Acompanhem !!


Minha longa espera no aeroporto de Barbados...

...e enquanto isso, o barco sendo levantado na marina
em Martinique para vistoria

Embarquei com 8 horas de atraso.. chegando em
 Martinique somente as 17:00.

...mas deu tempo de ir ver a criança a minha espera
já de novo na água


Dia seguinte, Jack - nosso Surveyor vistoriando o bote

e logo depois saimos todos para Sailing test.
Barcão deslizou suave pelas águas de Le Marin



Brindando com o povo da marina a assinatura do
contrato de compra

Adesivando nossa casa.. agora sim, ...o Itacaré é nosso !!!!!







...e a galerinha ansiosa no Brasil à espera de notícias.




domingo, 10 de abril de 2016

Habemus Logo !!!

São Paulo, 10 de Abril de 2016

Habemus Logo !!!

Isso mesmo, foi feito pela amiga Sandra - e a inspiração veio dos passarinhos tatuados no pescoço da minha amada.  O que que você achou ?   ...e se você até agora não entendeu o significado dos passarinhos ..mude agora para revista caras! :))

Valeu amiga Sandra!  Te pagaremos em dobro, com muitas diárias mundo a fora!!










sábado, 24 de outubro de 2015

Culpo a Dilma ou parto para briga ?

Martinique, 23 de Outubro de 2015

Há doze meses atrás, não haveria dúvida. Com o dólar à 2.3 reais, U$250k a gente comprava um belo catamaran de 44 pés e se mandava mundo a fora. Mas em tempos de Dilma com corrupção desenfreada e nossa moeda virando pó ladeira abaixo.... os mesmos R$570mil viraram U$150mil. E nesta cifra o jogo embola, e a decisão de compra fica mais dolorida.

Minha cabeça tem saído fumaça de tanto fazer conta e tentar resolver essa equação furada. A verdade é que não tem solução mágica: ou diminuo o tamanho do barco / "envelheço" ele ou espero um pouco mais e junto mais dinheiro. Simples assim.

Antes dessa viagem, com milhares de dúvidas eu tinha pouca ideia de que barco comprar e depois de ver muita coisa e conversar com vários caras que já viveram a bordo a coisa começou a clarear. 

Estou no quinto dia de viagem, já rodei várias marinas de St Marteen e agora Martinique. Devo ter entrado em uns 30 barcos e conhecido uns 15 caras que moraram anos no mar. Inclusive, cheguei à conclusão de que se no Brasil temos um Amyr Klink e uma família Schurmann pra cada 200 milhões de brasileiros..... por aqui, a cada 10 franceses que conheci, 9 são do mesmo tipo. 

Cada história desgarrada, com filhos, sem filhos, grávidos, em tempos antigos, recentes, barcos velhos, pequenos, grandes... com dinheiro, pobre de dar dó, tem de tudo!!! E depois de viveram anos no mar e atravessarem vários oceanos sossegam em alguma ilha do Caribe (tipo essa aqui) e vivem como broker, skyper, eletricista, mecânico, chefe de cozinha, instrutores de mergulho,  raspam fundo de barco, administram marinas e coisas do tipo. Ainda vivendo do mar, porém em terra. 

Um deles me falou que encerrou a vida a bordo depois de 10 anos pois quando a filha chegou aos quatorze anos começou a pedir pelas coisas da cidade, como internet, lojas, escola... Não teve jeito, ele sossegou para dar a ela um pouco da vida tradicional que ele também teve na França.

Fato é que se no Brasil nosso projeto tem um "q" de raro e "aventuresco", aqui em Martinique é chover no molhado! Grande aprendizado conhecer e conversar com este tipo de gente, não só pela experiência, mas principalmente para tirar de uma vez por todas o sentimento de que "é uma opção de vida maluca". Afinal pode ser sim maluca para brasileiro, mas este tipo de vida é muito comum em países com tradição náutica.

Na mesma linha, se no Brasil catamarans são raros e barcos grandes também aqui é impressionante a fartura! Só em Martinique, em uma única baia (Le Marin) deve ter uns 500 veleiros de todas as marcas e tamanhos: vi Leopard 45, FP Orana 44, Belize 43, Bahia 46, Lavezzi, Lipari 4, Lagoons de todos os tamanhos e idade (Lagoons, inclusive, dá por aqui igual a manga no brasil!!), Nautitecs, Catanas, Helia, mas vi também OC50, Cyclades 50, Jeanneau 54, 50 DS... Alubares... trimarans de marcas sofisticadas e outros que nunca ouvi falar. Impressionante !

O bacana desta ilha tem a ver com o perfil do turismo daqui - mais restrito, menos turistico como em ilhas como Bahamas, BVI e st Marteen. Tem muito velejador que vem pra cá justamente pela tranquilidade, e tem também muita empresa de charter pequena focada nesse mercado, com gestão familiar...onde o barco é muito bem mantido e o uso anual é pequeno. 

Como a coisa é mais selecionada, muitos dos charters inclusive são com capitão profissional a bordo, fazendo uma mega diferença comparado com o aluguel bareboat (aluguel onde você é o capitão e por consequências faz a barbeiragem e o mal uso que quiser do barco). O resultado disso tudo é que você acha bons barcos a venda por aqui com o perfil deste povo... mais bem cuidado, com menos uso.

Hoje por exemplo, entrei em um Jeanneau 50 pés 2009 espetacular! Barco de charter porém com poucas horas de motor (2.500) e com velas, estaiamento, piso interno, casco tudo impecável. Quanto?! U$180mil. Tá afim ?! Entrei também em um Fontaine Pajot Orana 44, um degrau acima de tirar o fôlego. 

Como somos em 4 e nosso plano é seguir do Caribe para o Pacífico pelo meio do mundo (vento alísio), estamos considerando veleiros de 47 a 52 pés  ou Catamarans de 42 a 44 pés. Barcos como OC50, Jeanneau 50, Leopard 43-45,  FP bahia 46 e FP Orana 44 estão no nosso radar.

Recebi uma aula também de como funciona a depreciação/desvalorização dos barcos de uma forma em geral e me recomendam optar por projetos mais aceitos. Diz o povo aqui que o que acontece com os barcos é mais ou menos o que acontece com nosso mercado de carros: um ano depois da compra de um barco zero ele perde 20% do valor.. e de forma progressiva vai perdendo ate que cinco anos depois ele vale 50% do valor original. E do sexto ano em diante ele tende a perder em media 1% ao ano - obviamente tudo dependendo do nível de manutenção/trato que o proprietário tenha dado ao longo do tempo.

A regra acima, dizem eles, vale para barcos bons. Projetos "piores" tendem a ter soluços mais acentuados e menor liquidez dado a pouca fama do barco no mercado. Deram como exemplo positivo barcos como o Bahia, Belize, Lavezzi... projetos que estão a 10 a 20 anos no mercado. É claro que como estou em uma ilha francesa, os caras vendem mais o peixe dos barcos franceses..

Se o que eles dizem for correto, talvez faça sentido sim investir um pouco mais desde que no futuro a gente consiga revender o barco recuperando a maior parte do valor. Principalmente se no pacote vier conforto, segurança e prazer de viver a bordo.

Com tudo isso na cabeça...  e o garçom aqui me catucando para fechar a conta, passei a apontar meu canhão para o Foutaine Pajot ORANA 44. O valor vai nos esfolar muito mais no curto prazo mas talvez valha a pena. O futuro dirá.

Acompanhem !!


PS (atualizado em abril/2016): logo após esta viagem - em Novembro, decidimos a compra. Assinamos o contrato do FP Orana 44 ano 2010, um dos barcos que vi nesta viagem. Pagamos o sinal de 10% com o compromisso de quitar a compra em abril/16 mediante a entrega do barco. O barco é de uma pequena empresa familiar de charter e, apesar das 3.500 horas de motor, está impecável e com bom nível de equipamento. Falarei mais sobre isso à frente. 


esse aqui foi o Orana que a primeira vista nos pareceu inalcansavel
 e que posteriormente assinamos a compra

E abaixo outros vários barcos que vi nesta viagem...















A vida pode ser mais simples

St Marteen, 21 de Outubro de 2015.

Como a vida pode ser bem mais simples! Escrevo estas palavras tomando café da manhã em St. Marteen, lado francês. Enquanto dou uma bicada no café, vejo o povo do mar ir e vir em seus dinghes entre manutenções, obrigações e coisas do tipo.

Cheguei aqui ontem para iniciar de forma séria (agora sim!!) a compra do nosso barco. Comprei a passagem pra cá exatamente no dia em que entreguei o Lafitte pro seu novo dono, meio que um remédio pra curar a ressaca da venda do barco.  Deu certo, pensei tanto nesta viagem que virei a página rapidamente e nem olhei pra trás.

Vim sozinho de mochila nas costas, música nos ouvidos e muitos pensamentos na cabeça. Como essa viagem é exploratória - a primeira de duas ou três vindas, trazer a tropa toda não cabia na logística e nem no bolso.

Nos últimos dois dias vi uns 7 a 10 barcos entre catamarans e veleiros. Bom estar aqui, pois a variedade, tamanhos e quantidades de barcos põem o Brasil de joelhos. Enquanto em todo nosso país devemos ter um ou dois Jeanneaus 54 por aqui tem cinco a cada esquina.

Inclusive vi um destes de cair o queixo. Como estamos no meio da época de furacão o bichão estava amarrado no seco em um shipyard impondo respeito.  Shipyard (eu não conhecia) é um grande pátio de estaleiro onde eles fazem manutenções e também guardam barcos amarrados em blocos de concreto ou enterrado com a quilha no chão para proteger do furacão. Deve dar certo, pois o pátio estava lotado.

Jantei ontem tomando um vinho e olhando para Fountain Pajot Orana 44 (catamaran), simplesmente um espetáculo! A cada garfada na pizza meu pensamento ia mais longe imaginando a vida a bordo com nossa galerinha. Verdade é que esse barco (dos sonhos) talvez não caiba no nosso bolso em tempos de Dilma com dólar a 4 reais. Mas quem sabe, sonhar é de graça. 

Hoje pego um voo para Martinique - outra ilha francesa a duas horas daqui. Por lá tem vários catamaran para visitar e alguns bons veleiros também.

É, a vida pode ser sim bem mais simples e descompromissada. Por aqui já conheci francês, inglês, lituano, alemão... Todos filhos do mundo, viajantes que já pingaram em vários países e em vários tipos de trabalhos como garçons, brokers, skypper, gerentes de restaurante e por aí vai.

Falam vários idiomas e trabalham para ganhar algum dinheiro e viver. Diferente do nosso modelo atual de viver para trabalhar, conquistar, competir... Se o trabalho acaba ou a vida tá ruim ele simplesmente mudam de ilha ou mesmo de país. 

Um deles, um alemão grande (que já morou em vários países) e hoje é gerente de uma pizzaria onde estava jantando, me cumprimentou e quando viu que eu era brasileiro já mandou na lata, "Good evening 7 - 1", demorei para entender, mas ele chutou de primeira: "...come on, don't you remember the worldcup last year ?", ok.. entendi.  "We'll be back" , eu disparei.  :)))  

Outra historia interessante é da broker (Marie-Claire) que esta me atendendo.  Francesa, simpática, mora por aqui há dois anos, veio para cá com o marido e dois fillhos de "mala-e-cuia".  Aproveitou que fala vários idiomas e mesmo sem entender muito de barco conseguiu emprego como broker de barcos. Simples assim, decidiu mudar de vida e pronto. Enfim.. mais notícias em breve.







Esse barcão aqui é o Jeanneau 54 que falei. no canto a direita a Marie-Claire,
amiga broker que muito nos ajudou na procura pelo barco ideal

No fundo o alemão grande, o tal cara do "seven - one"

Pegando voo de St Marteen para Martinique..



Barcos amarrados no estaleiro em Martinique..


Meu cafe da manha em St Marteen - pensando na vida.. sonhando..